SIMONETTA PERSICHETTI


Jornalista, Mestre em Comunicação e Artes, Doutora em Psicologia Social PUCSP, Crítica de Fotografia e colaboradora do Caderno 2 do Jornal Estado de São Paulo e com uma lingua afiada para fotografia.

Com muita certeza uma profissional com conteúdo!

Veja abaixo a entrevista para Fotosite.

25/06/08
FURACÃO SIMONETTA

“O livro do Sebastião Salgado, com as fotos de criança, é muito ruim”

Um dos principais nomes da crítica fotográfica especializada brasileira, Simonetta Persichetti foi a convidada da mais recente edição do projeto Na Redação. Durante um papo de aproximadamente duas horas, Simonetta criticou, sorriu e não escondeu o temperamento herdado do sangue romano. “Eu acharia um horror se todo mundo gostasse de mim”. Sobre os processos de seleção de premiações, ela foi enfática: “Processo de edição é processo de exclusão. Às vezes o trabalho que você acha genial já foi feito por várias pessoas”. Simonetta falou também sobre o novo perfil da fotografia, “o discurso dominante é esse: eles estão tomando o rumo de um novo documental. Já que o fotojornalismo está em crise, a gente cansou um pouco de fotografar criança com ranho no nariz, de mendigo embaixo da ponte”. Sobre a crítica no país salientou: “Crítica no Brasil é confundida com opinião, por muitos. Aqui no Brasil todo mundo é curador e todo mundo é crítico”. E nem mesmo, Sebastião Salgado passou despercebido. “O livro do Sebastião Salgado, com as fotos de criança, é muito ruim”.

Flávia Lelis: Você assistiu ao filme Tropa de Elite?
Não.

Flávia: Por que?
Por várias questões. Primeiro porque já foi tão falado que sem assistir você já assistiu. Segundo porque estou um pouco cansada – não estou criticando o filme porque não vi -, mas estou muito cansada dessa coisa de violência. É uma coisa que me saturou, que a gente já tem por demais para eu sair da minha casa de livre e espontânea vontade para ver algo sobre violência.

Diego Dacax: E como você acha que a mídia deve tratar desse tema que é presente na vida de todo mundo?
Acho que essa é uma coisa preocupante, não é? Porque tudo virou um grande espetáculo. E até pelo cinema a violência virou um espetáculo. Por mais documentário que isso seja – e não é o caso do Tropa de Elite – vira um mero espetáculo, então, tudo ecoa de forma maior, se não, não atrai as pessoas. Agora a gente teve o caso Nardoni que foi um grande espetáculo. Foi uma coisa exagerada. A sociedade julga, porque não é justiça, então o papel da sociedade é julgar mesmo (risos). Onde é que está essa menina Nardoni hoje? Eles inventam outras coisas para virar mais espetáculo novamente, como levantaram que a menina foi estuprada. Então você vai lançando os factóides para manter isso vivo e aí, o que acho que acontece: a gente se aliena. Chega um momento em que você sai na rua e vê alguém sendo assaltado e vira a cabeça para o lado e diz: “ah, eu não vi”. Quando você tem essa espetacularização, esse sensacionalismo da violência você acaba de alguma maneira se alienando, você já não reage mais. Você fica saturado.

Flávia: Olhando para a fotografia impressa, você acha que esse tema, esse apelo da violência é muito recorrente?
Por isso que eles alienam, porque não passam pela sua reflexão. Eles são tão piegas. O que você tem hoje na mídia? Ou coisas absolutamente medíocres, que são ruins mesmo, ou então coisas apoteóticas. Você não tem mais informação. Quer dizer, qual é o problema da fotografia impressa hoje a meu ver? Ela perdeu informação. Não se pensa mais fotografia, fotojornalismo como informação, pensa como ilustração, como estética ou como arte. O que eu também acho que é errado, porque o jornalismo ele é uma técnica, você pode mudar até o tipo de linguagem fotojornalística, mas ela é técnica ela é informação.

Diego: Você acha que a fotografia muitas vezes diz o que é antiético o jornal dizer? A imagem fala uma coisa que mesmo uma legenda não consegue desfazer?
Olha, é boa essa coisa, porque eu nunca vi desse jeito. Vou até começar a prestar atenção. Porque, na verdade, eu concordo com uma expressão que o Hélio [Campos Mello] usa sempre, que é “O óbvio eficiente”. Eu não vejo mais essa fotografia. Foi bom você falar isso, porque talvez eu esteja vendo já com preconceito. Eu não vejo mais essa fotografia crítica, esse fotojornalismo que foi muito feito nos anos 70.

Diego: Mas eu não acho que seja um jornalismo crítico mesmo…
É, eu acho que tem uma coisa assim que eu até escrevi sobre isso. Há um tempo, o outro ombudsman da Folha (de São Paulo) fez um escarcéu por causa de uma foto de restaurante que tinha sido manipulada e que aquilo não era jornalismo e não sei o quê. Meu Deus do céu, foto de restaurante é sempre manipulada, porque ninguém faz uma foto de um restaurante com o prato sujo, o vinho derrubado… Você sabe que aquilo é arrumado. A foto é arrumada toscamente, concordo, mas você dizer que aquilo é uma imagem manipulada? O fotojornalista quase perdeu o emprego por causa disso. É um absurdo!

Diego: Quando o pessoal da Cia de Foto teve aqui o Pio Figueiroa falou de representação. Por que a gente não poderia montar uma cena para o fotojornalismo, por exemplo?
Essa é uma questão muito delicada porque criou-se uma idéia de que quando você é fotojornalista baixa o santo, você clica e nada pode ser mexido. Agora eu pergunto: você escreve, não escreve? O seu texto não passa por revisão? Às vezes ela pode melhorar ou pode piorar o seu texto. Por que é que a foto não pode ser consertada? Então, essa questão da manipulação é assim: o que você não pode fazer, nem na foto, nem no texto, é inventar uma história. Manipulação da imagem não está em mexer na imagem, está na legenda, no texto, na forma como você coloca a foto na página. Quantas imagens foram manipuladas pela legenda? Se eu colocar na foto que você é o Thomaz e ele é o Diego vocês podem ficar roxos na rua dizendo que é o contrário, porque a pessoa vai dizer “não, eu vi a foto, estava escrito no jornal”. Então a pessoa acredita muito mais naquilo que ela vê, do que naquilo que ela conhece.

Thomaz Gomes: Você não acha que isso pode abrir um precedente para as pessoas manipularem as imagens que pode ser aproveitado por quem não tem “bom senso”?
Pode abrir precedente sim. Não se pode sair por aí manipulando imagem. O que eu acho que vai acontecer, e isso eu acho que vai ser excelente, é que as pessoas vão olhar para uma foto e vão saber que aquilo é a tua opinião e não a verdade absoluta. O que acontece hoje com esse negócio da manipulação é que estão quebrando a minha fé, a minha crença. A partir do momento que eu sei que essa é a tua opinião ou a opinião do jornal e que ele tem uma outra idéia essa questão da manipulação vai morrer.

Diego: Mas esse não é um problema só da fotografia, é da imprensa também.
É da imprensa. Da imprensa brasileira que não toma posição. O que é manipular uma imagem? A partir do momento que você escolhe uma determinada lente, a luz, o local que você vai se posicionar para fazer essa foto, você já manipulou. Você vai cobrir uma manifestação estudantil, você é à favor dos estudantes. Que tipo de foto você vai fazer? Muito mais da polícia atacando do que dos estudantes. E o fato não aconteceu? Aconteceu. Você mexeu na imagem? Não, mas você manipulou a informação. O mesmo acontece do lado contrário, se eu pego os estudantes atacando a polícia. Agora, esse jornalismo que eles dizem “ouçam os dois lados e bla,bla,blá…” foi o Papai Noel que escreveu, não é? (risos)

Flávia: Olhando a fotografia brasileira atual o que você acha, qual é a sua análise?
Olha, fotojornalismo é o que é. Os problemas do fotojornalismo são os do jornalismo, da imprensa em geral. Mas mesmo pegando o fotojornalismo, se pegar assim a fotografia brasileira como um todo eu acho que ela está muito bem obrigado. Eu acho que é uma fotografia que cresceu muito, que explodiu muito nos últimos anos. Por que a gente fica tão chateado com o fotojornalismo? Porque de 60 a 80 a nossa linguagem era o fotojornalismo. Quando você tem em 79 a abertura da galeria Fotóptica, a exposição que inaugurou é fotojornalismo. Quando você tem a primeira trienal de fotografia no MAM em 81 – estão vendo como é bom ser velha? (risos) – 90% das fotos era de fotojornalismo. Acho que existe um problema que é a fotografia mundial, não é brasileira, nós estamos indo para uma estética publicitária fantástica, fantástica. E isso eu não falo com preconceito, eu falo com análise. Por que? Se a gente está vivendo na sociedade do espetáculo, isso vai para arte. Então você tem muitas fotografias totalmente desfocadas ou perfeitamente iluminadas. Mesmo o trabalho da Cia de Foto funciona assim, com uma estética publicitária, que eles pegam lá do Felipe não sei das quantas, que fazia isso lá atrás, não é, fotos em grandes formatos, perfeitas, todas brilhantes, você vê isso na escola alemã, também e daqui há pouco você sai da exposição e te perguntam: “o que você viu?” “Vi uma foto lá verde…”. Mas como verde? Como assim, o que tem na foto? “Não sei, mas eu lembro que era verde”.

Diego: Você acha que é possível traçar um perfil da fotografia brasileira atual? Qual é o discurso dominante desta fotografia?
Então, o discurso dominante é esse: eles estão tomando o rumo de um novo documental. Já que o fotojornalismo está em crise a gente cansou um pouco de fotografar criança com ranho no nariz, de mendigo embaixo da ponte. Então agora quando você vai fotografar a favela, a periferia, a violência, você traz isso com esse novo olhar. O que aparece muito? Muita cor. Antigamente fotojornalismo, essa foto social era praticamente toda em branco e preto. Hoje as pessoas estão fazendo muita cor. Como linguagem é uma coisa, como distração é outra.

Diego: Você acha que ela está colaborando mais para a distração?
Mais para distrair, por isso que você lembra da foto verde. Você tem fotos muito saturadas, com uma estética muito próxima dos jogos de videogame, com cores bem fortes, com movimentos que parecem de jogo. E eu não estou falando se isso é bom ou ruim, ok? Estou analisando o que a gente está vendo, porque para mim, isso é resultado de uma era de espetacularização, de consumo imediato. Eu acho que sempre foi consumo, só que agora é descaradamente (risos), ela perdeu a vergonha, assumiu que é isso.

Flávia: Você falou que a fotografia brasileira está muito bem obrigado, mas cadê os nossos novos talentos?
Primeiro a gente tem que ver o que é um novo talento. Você, em qualquer expressão, precisa de um tempo de amadurecimento. Então vamos falar do João Kehl (Cia de Foto), porque ele é um caso específico, foi meu aluno e já se formou há algum tempo. Quando esse menino entrou na faculdade e me mostrou o trabalho dele eu falei “esse menino tem olho” e o incentivei a ir para Caraívas. Tinha tanto olho que ele sabia quem era legal para aprender com eles. E aí ele estourou, mas veja, isso há dois anos, mas o João Kehl está pelo menos há seis anos fotografando, então você precisa de um amadurecimento. E fotografia as pessoas acham isso: “Eu vou passar cinco dias em algum lugar e volto e faço uma exposição,porque as imagens ficaram lindas”. Ah, tá. Lindas para quem cara-pálida? Por que com a fotografia as pessoas agem assim? Por que a pessoa pega uma câmera, faz uma foto, acha que está boa e quer expor? Conheci o fotógrafo Márcio Guedes de Sergipe que faz um trabalho sobre tradições populares, que voltou à moda agora, mas é um trabalho muito bom. Agora Flávia, você que trabalha num site de fotografia, se eu te pedir dez fotógrafos de Sergipe, você sabe? E de Campo Grande? O que faz falta? Um mapeamento.

Thomaz: Tem uma máxima entre os artistas que diz que quem não sabe critica. O que te dá propriedade para opinar sobre o trabalho de alguém?
Primeiro: eu sei fazer (risos). Até 1990 eu fotografava e fazia cursos de fotografia. Eu tive uma grande formação em fotografia na Imagem e Ação. Quando uma pessoa fala comigo sobre foto eu sei do que ela está falando. E, em segundo lugar, gosto é algo que realmente é muito forte. Agora eu estudo muito a fotografia. Em 1980 eu decidi que ia escrever sobre fotografia, então calcule o que eu já li desde então. O que eu procuro fazer é ver o que um trabalho traz de novo, se o trabalho tem um olhar diferenciado, se cumpre o que propõe. Agora tem caras que eu não gosto e que eu jamais vou escrever sobre ele. Eu não vou dar espaço para ele na mídia.

Diego: Você já se arrependeu disso?
Por enquanto não. Eu já me arrependi do contrário, de ter dado espaço para o cara e depois ter me decepcionado. Mas naquele momento o trabalho dele era bom. E aí você vê que tem muita gente no topo porque tem mídia atrás. Agora eu não tenho preconceito, por exemplo, com linguagem fotográfica. É claro que eu não posso comparar um trabalho publicitário, por exemplo, com o Miguel Rio Branco. Não que o Miguel seja melhor e o publicitário pior. Nada disso. Mas são linguagens diferentes e devem ser analisadas dentro de seus contextos.

Flávia: Mas se tem um tipo de fotografia que você não gosta e um fotógrafo te entrega um trabalho desse jeito. O que você faz?
Eu paro e vejo. Vejo se contempla o que as pessoas fazem nesta área, se está indo além, se não está fazendo nada. Vou te dar um exemplo banal: “Ah! Eu vou fotografar a periferia pois eu quero mostrar como as pessoas sofrem”. Aí o cara traz as fotos e isto não está nelas. Aí já temos um problema. Ou as pessoas não sofrem na periferia, ou você está inventando esse discurso agora. Então o que acontece? O tema superou você? Aí temos um problema. Por quê você não está dominando o que quer falar.

Flávia: Agora se chegasse um trabalho deste tipo que fosse bom, mas que você não gosta. Você faria uma crítica sobre ele?
Faço. Já fiz isso inclusive. Mas claro que dá para perceber, pois eu não sou uma máquina. Se você pegar meus textos, você percebe claramente quais trabalhos eu gostei e quais eu apenas fiz a crítica, pois em geral, são textos corretos e nada mais.

Flávia: Mas não cria um certo conflito? De escrever sobre algo que você não acredita…
Não é que eu não acredito. Não é a linguagem que eu gosto mais. Mas eu sou profissional. Mas eu me reservo ao direito de se for um fotógrafo que eu não acredito, não fazer. Isso é preconceito mesmo e eu assino embaixo. Não me sinto confortável. Isso aconteceu outro dia. Um fotógrafo me chamou para eu escrever um texto sobre o livro dele, que era sobre este tipo de trabalho, que eu não gosto. Falei que não era minha área. Eu fui me encontrar com ele e além de não gostar da linguagem, eu não gostei do trabalho do cara. Falei: “Olha, não vou escrever…”, e ele ficou possesso comigo, falou que eu já tinha escrito sobre outros. Escrevi sobre outros, pois gostei do trabalho. Vou falar sobre o tipo de trabalho para vocês entenderem. Eu não gosto de foto de Natureza. Ararinha voando, que está sempre em extinção, mas que sempre aparece. É a que mais ganha direito autoral. O jacaré de boca aberta, a garça alçando vôo… Eu acho um horror. Acho uma fotografia muito tosca e muito pobre. Agora, por exemplo, o Valdir Cruz, que fez o trabalho das águas, é fantástico. Como eu não vou comentar um trabalho desses? Tem uma pesquisa por trás, um propósito. O Marcos Piffer. Adoro ele.

Flávia: A nossa fotografia tem grandes mestres, mas pouco investimento. Você acha que é porque a comunidade fotográfica se porta como um gueto?
Acho que todas as áreas têm um gueto, pois você se protege. Acho que na verdade, a fotografia no Brasil demorou a entrar no circuito artístico. E aí o que acontece? As fotografias estão nas galerias e as pessoas estão vendendo fotos, mas estes mesmos galeristas que estão vendendo não entendem muito de fotografia. Então eles vão pagar o valor da fotografia pelo tamanho, pela tiragem. Eles próprios criam mecanismos, pois não sabem como te vender uma foto. Se eu tivesse dinheiro para comprar um original do Cartier-Bresson, eu pouco me importo se você também tem. Por quê eu não vou comprar isso por investimento. Tem o cara que compra apenas por investimento, pois muitas vezes, ele não vai nem pendurar na parede da casa dele. Ele vai guardar no cofre, comprar por 10 e vender por 50. Tanto faz ele comprar uma foto ou um colar de diamante. Não é para ser usado, é mercado. É status. É uma coisa muito sutil para se pensar. Ou então você faz aquelas outras bobagens, de vender a foto por 5, 10, 30 reais. Aí você não cria mercado. Você faz um leilão para ajudar alguém, mas os preços não são verdadeiros. Aí se eu vejo uma foto por R$ 500, por quê eu vou pagar maid por ela? Esse mercado vai vir de fora, não adianta. Tem pessoas indo para Nova York, para estudar preço de foto. A gente vai importar isso, indiretamente. Se o valor está na reprodutibilidade e não na imagem, isso é mercado. Não é trazer bom gosto e qualidade.

Flávia: Num texto o Juan Esteves comenta sobre os livros ruins que são lançados no Brasil e que “que as melhores publicações que trazem boas fotografias não são necessariamente “livros de fotografia”.
Mas peraí. Ele elogia todo mundo… Primeiro eu acho que isso é irreal, pois editoras não apostam em livros ruins, porque fotografia é muito caro. Então se você banca seu livro, é numa gráfica mequetrefe e aí mesmo que seu trabalho seja bom, ele está péssimo, pois foi mal impresso. A gente tem um problema sério com gráfica. O Márcio Scavone montou uma editora, imprimiu o livro do bolso dele e é de uma qualidade fantástica. E quantos livros ruins de fotografia você vê nas livrarias? Nenhum. Por que livraria hoje não compra livro. Faz consignação. Vai lá e dá seu livro ruim para o cara da Livraria Cultura. Ele vai colocar lá e se não vender vai mandar você vir buscar esta merda. Acho isso balela, generalização. Não se publica tanto livro assim. Eu faço a coleção Senac. Os livros não são bem impressos, pois não existe uma tradição em fotografia. Várias vezes tivemos que reimprimir toda uma edição. Mas ele não é um livro de arte, é uma pista, que indica os fotógrafos que você pode gostar, para ir atrás do trabalho deles. É muito difícil fazer isso. E mesmo eu e o Thales (Trigo) tendo sido demitidos do Senac e a faculdade querer tirar os livros da gente, que são nossos por contrato, a editora honrou o contrato e continuou a fazer os livros com a gente. A Editora Senac é de um profissionalismo exemplar nisso. As editoras velhas não imprimem, pois sabem que existe esse problema. Será que os livros dos grandes mestres são sempre bons? Eu estou comprando o livro, não o nome. O livro do Sebastião Salgado, com as fotos de criança [Retratos de Crianças do Êxodo], é muito ruim. Acho ele um super fotógrafo, mas o livro é ruim. Tomando cerveja todo mundo acha qualquer coisa. Mas a partir do momento que você tem um órgão de imprensa por trás é preciso muito cuidado. Crítica no Brasil é confundida com opinião, por muitos. Aqui no Brasil todo mundo é curador e todo mundo é crítico. Tem que ter cuidado com isso.

Flávia – Vou citar um trecho com a entrevista dos meninos da Cia, falando sobre um prêmio, no qual eles se inscreveram. “Por quê não criar uma linha editorial de trabalhos contemporâneos. Pára de premiar gente que faz a mesma coisa há 20 anos. Você dar um prêmio para um cara desses mata todo o processo de produção, de experimentação”. A pergunta é a seguinte: as comissões julgadoras estão prontas para o novo, para estudos de linguagem ou estamos presos, temos que olhar o currículo da pessoa, olhar o que ela já fez antes?
Eu vou falar uma coisa aqui, perigosa, mas vou explicar. Fiz parte de muitas comissões, mas não acredito em comissões julgadoras e na forma que as fotos são escolhidas. Não acredito da forma como é feita. Não se tem uma discussão muito grande e o julgamento é sempre uma coisa muito pessoal. Eu penso assim: como é que você vai julgar uma coisa numa tarde, com dez pessoas juntas ao mesmo tempo? Estou criticando a forma dos concursos e não a lisura ou honestidade dos jurados e muito menos dos que organizam. Muitas vezes as pessoas são influenciadas. Espalham-se os trabalhos em cima das mesas e vai se julgando. Fica mais fácil apostar no conhecido. Apostar no novo é muito perigoso, em qualquer área. A própria Cia de Foto é um exemplo disso. Há quanto tempo eles estão no mercado e há quanto tempo eles estão realmente dominando a mídia? São todos jovens. Tem um tempo de amadurecimento. Questionar o curador por quê ele premiou este e não aquele, é esquisito. O caráter de seleção é sempre injusto, pois a partir do momento que eu escolho, já existe uma injustiça, por mais correta que ela seja. Processo de edição é processo de exclusão. A pessoa pode ser bem-preparada, mas tem que aceitar que seu trabalho talvez ainda não esteja pronto. E isso as pessoas tem dificuldade de aceitar. Por quê elas também se acham. “Ah! Mas eu sou genial”. Às vezes o trabalho que você acha genial já foi feito por várias pessoas. Então ele não é genial coisa nenhuma. Você está contando a ignorância de quem julga. Isto é muito baixo. Aí também o que é premiar fotografia contemporânea? É premiar o cara que fotografa com scanner? É premiar a tecnologia ou você estar ligado com as ansiedades modernas? Você pode fazer um trabalho contemporâneo com pinhole e fazer algo completamente ultrapassado com digital e scanner.

Flávia: Na capa da nossa nova revista, a Clix, tem um ensaio que é bem produzido, com muito Photoshop. No Brasil eu vejo pouco disso. O que tem sido feito de novo, por aqui, nesse sentido?
Nesse ponto a gente é prejudicado um pouco por conta de grana. Hoje quem investe em equipamento é fotografo de publicidade e como esse é o ganha pão dele, ele não vai brincar com isso, mesmo porque se quebra fica caríssimo. Mas esse negócio também pode ser desculpa, por quem tem gente fazendo fotos ótimas com o celular.

Thomaz: Em relação à tecnologia dos meios, uma pessoa para ser valorizada precisa ter uma obra publicada, ter um livro, estar em concurso, etc, ou você acha que tem algum valor o flickr?
Eu acho que os blogs são as coisas mais maravilhosas que existem hoje…

Thomaz: Você acha que falta passar uma peneira aí talvez?
Falta, mas é porque a gente ainda está no lúdico. Agora, a peneira vai vir dos próprios usuários. Voltando à questão do conhecimento, antes da internet, realmente a gente tinha uma ditadura, não política, mas uma ditadura visual.

Thomaz: Para um texto também…
Para tudo! Para arte, para texto, para música. Você tinha aquilo que alguém dizia que você tinha que ver, ouvir e ler. Hoje em dia, você fala para mim: “Eu não quero publicar sua foto”. Acabou, eu ponho no flickr, no blog, e muita gente vai ver muito mais a minha foto do que se fosse publicada na sua revista.

Thomaz: Você acha que quando ela é publicada em mídia impressa ela agrega bastante ou não tem esse negócio que está cravado ainda na cabeça das pessoas de ter aquele “valor maior?”
Sem dúvida, mas isso vai mudar. Hoje, focando a imprensa, os melhores jornalistas estão fora da imprensa e têm blog. Eu a duras penas aprendi a fazer meu blog. Eu descobri no blog a quantidade de gente que interage, que lê, que comenta. Comentários maravilhosos, comentários absolutamente idiotas, mas que estão ali e fazem parte porque agregam o conhecimento e você cria uma blogosfera. Aconteceu comigo uma história muito engraçada por não saber trabalhar em blog. Um dia ante de eu postar o blog encontrei um amigo meu que chama Érico, e comentei com ele que eu tinha o blog. Ele falou: “Então tá…”. No dia seguinte eu entro no blog e tem um comentário escrito assim: “Gostei muito do seu blog. Estou com preguiça, quando eu não tiver mais preguiça eu escrevo mais. Abraços, Érico”. Imediatamente eu achei que fosse o Érico, e eu respondi pra ele. Eu falei: “Larga a mão de ser preguiçoso e escreve!”. Mas não era ele, era um cara que estava fazendo um pós-doutorado em filosofia hermenêutica na Espanha, que gostava de fotografia. Ele ainda respondeu: “Nossa, nunca conheci uma pessoa tão espontânea”. Eu alcancei um publico que eu jamais alcançaria se não fosse o blog.

Flávia: Isso me preocupa um pouco. Você tem repertorio de fotografia, anterior à internet, e agora você esta entrando neste cenário do blog, está antenada com nossa realidade. As pessoas falam: “Nossa, nos Estados Unidos, na Europa, a produção ér incrível”. Não! É que eles estão produzindo, é de acordo com a realidade. Temo que as pessoas que estão a frente de jornais e prêmios aqui no Brasil não estejam tão antenadas.
É, mas isso não tem muito como controlar. O digital, na minha cabeça – eu posso estar falando a maior cagada – mas eu acho que a linguagem digital foi revolucionária na história do homem. Não que o telefone não tenha sido, não que o avião não tenha sido, mas do que a própria fotografia, porque ela transforma o comportamento, porque ela tem como se adequar a um novo comportamento. Eu vejo meu pai, que tem 80 anos, tem um computador e ele me chama a cada cinco minutos. “Esse negócio não imprime!”. Na cabeça de quem tem oitenta anos deve ser difícil entender, é difícil essa linguagem, para nós também é. Na era digital você tem uma absorção tão rápida que na hora em que você aprendeu, pode jogar fora. Você já está ultrapassada, então você tem que mudar a cabeça. MacLuhan disse que “O mundo é um bordel sem parede”, olha que coisa forte. Anos 60, eles estão se referindo a que precisamente? À televisão. Imagina esses caras hoje? Não sofra por algo que não nos pertence, a gente fez a nossa parte.

Flávia: O que é morar nesse país?
Olha, para mim é tudo, e eu vou te explicar o porquê. Nós somos uma família que preservou aqui o mundo italiano, minha irmã só aprendeu a falar português quando entrou na escola, então para o Brasil, e você deve ter escutado isso em tudo quanto é lugar, eu sou a italiana, a carcamana. Só que para o pessoal da Itália, “chegou minha prima brasileira que fala muito bem italiano”, e eles me apresentam assim. Eu falo que eu não sei sambar, eu chego lá e toca musica brasileira para eu ouvir, querem que eu faça caipirinha, então, isso cria uma certa esquizofrenia. Mas chegou um certo momento da minha vida que isso ficou muito claro. A Itália pra mim meu Shangri-Lá, é o lugar que eu vou todo ano, que eu em divirto, que eu como e bebo bem, eu me divirto e ninguém me conhece. O Brasil é tudo para mim porque me permitiu ser quem eu sou hoje. Foi aqui que eu estudei, me formei, comecei minha carreira profissional. Esse foi o país que eu escolhi e que eu moro porque eu quero, apesar de todos os problemas que a gente tem, que não são muito diferentes da Itália. Morar no Brasil para mim é tudo, tudo o que eu tenho hoje foi o Brasil que me deu. A Itália me deu o temperamento!

Flávia: Eu estou na FS há dois anos e escutei falar muito de você, até conhecê-la pessoalmente. E as pessoas sempre falam do seu gênio, de ter sempre opiniões bem definidas. Considerando também o seu temperamento, você acha que as pessoas têm medo de você?
Medo eu não acredito, e eu acho bom isso sabe, não é só porque eu sou italiana, mas porque eu sou escorpião. Eu não sou italiana, o que é bem diferente. Você vai pra Roma, você pergunta para alguém: “Você é italiano?”, eles respondem “Não, sou Romano”. E a colocação do Rafael de quer ir à Itália é que nem ir ao Bom Retiro, na Itália eles estão condenados à morte. Com todo o respeito ao Bom Retiro, porque ou ele não foi à Itália, ou ele não foi ao Bom Retiro. Eu sou pé no chão. Então eu sinto isso sobre as pessoas: ou elas me amam ou me odeiam. Eu acharia um horror se todo mundo gostasse de mim. Isso eu não falo porque as pessoas não gostam, porque tem gente que gosta e tem gente que não gosta, seria um horror se todo mundo gostasse de mim, porque eu não gosto de todo mundo.

Flávia: E qual tua maior frustração?
Eu não vou levar para o lado pessoal, vou levar para o profissional. Talvez uma que ainda vou superar, eu queria muito escrever um livro, mas não um livro de fotografia. Talvez a fotografia seja a base. Eu sempre gostei muito de escrever, talvez seja por isso que eu optei por escrever. Mas acho que eu não sou capaz de escrever, sou capaz de escrever jornalismo, isso eu sei que eu faço super bem, mas isso é técnica, eu queria ter a capacidade para escrever uma historia…

Thomaz: Romance?
Uma história, mas não com o intuito de romance, eu gostaria muito.Eu acho que me tornei jornalista porque eu tive uma infância em que meus avós contavam muita história e liam muito livro para mim.

Flávia: Que postura te tira do sério?
Falsidade.Eu prefiro uma pessoa que olhe para mim e diga “eu não te suporto” do que uma pessoa que na frente te beije e fale bem, nas costas fale mal como se você não soubesse. A falsidade me tira absolutamente do sério, até porque eu não sou, o que minha boca fala, meus olhos confirmam.

Flávia: A Cia falou da consciência social deles, mas para você que é ser consciente?
Ser consciente é ser cidadão, assim como ser consciente de que se o governo que você apoiou está dando errado, você não pode defendê-lo só porque é bonito, porque é a mesma coisa que você defender um filho seu adolescente que está roubando. O garoto de dezoito anos que se embebeda e sai dirigindo, não é que você não pode beber, é que você deve ser consciente até onde você pode ir. Se você matar alguém, você vai responder, se você matar um índio, e é meu filho, você vai para a cadeia, sinto muito.

Diego: Até que ponto você acha que o contexto político influencia a fotografia e a crítica fotográfica no Brasil?
Eu acho que não é no Brasil, eu acho que é no mundo e não é o contexto político, porque o contexto histórico sempre vai estar refletido na arte de maneira geral. A fotografia não está solta no tempo e no espaço, está relacionada com o contexto sócio-histórico. Porque há tanta foto individual hoje? Porque o chamado modernismo e hipermodernidade são o que você quiser, nos tornou muito individualistas, não um individualismo consciente. Quando se fala que caíram as ideologias, não é ideologia, é a teoria. Hoje é tudo na oba-oba, e as pessoas olham para o próprio umbigo.

Diego: O tema do seu mestrado me fez lembrar o livro da “Memória em Sociedade” da Ecléa Bosi, em que ela retrata um determinado período de São Paulo a partir da história de vida de idosos. Você acha que os meios de documentação da nossa época têm feito um retrato justo dela?
Ao trabalhar com história você trabalha com sobras. Quem disse que o que a gente estuda dos egípcios é o que tinha de mais significativo dos egípcios? A história se transformou. Então, se eu aprendo uma história recente, antes de 1970, dá muita conta sim. Na história da publicidade dos anos 70 você tem a historia do período, você tem o que as pessoas consumiam, como era o consumo, o valor que se dava para o consumo, que idéia você estava vendendo para essa sociedade. Te dá um retrato sim, mas toda a fotografia acaba sendo um retrato do nosso contexto sócio-histórico, muito mais do que a pintura, muito mais do que qualquer coisa. Você pega um jovem de quinze anos e pergunta qual a imagem que ele lembra, ou ele te fala da menina do Vietnã ou do Che Guevara, ambos de uma época que ele não viveu. Daqui a um tempo todo mundo vai lembrar da foto dos aviões do 11 de setembro, tanto que muitos filósofos e historiadores disseram após isso: ”Entramos no século 21”.

Flávia: No que você não acredita?
Em auto-ajuda. Não acredito. Talvez acredite nas religiões porque elas têm toda uma historia por trás, toda uma filosofia. Auto-ajuda é fast-food, não acredito em nada que fique pronto em cinco minutos, me cheira a algo estranho. Eu não acredito em Miojo!

Coragem: Ser verdadeira.

Simonetta: Eu

Comunidade fotográfica: Relação de amor e ódio

Uma grande mentira: Que a fotografia é a verdade

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